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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Biografia que revela de vez Francisco Sá Carneiro

Biografia que revela de vez Francisco Sá Carneiro
É um dos políticos que marcaram o pós-25 de Abril de forma definitiva mas que nunca foi estudado com esse carácter definitivo que se exige há três décadas. A semanas de se perfazerem três décadas sobre a sua morte, a 4 de Dezembro de 1980, o jornalista Miguel Pinheiro publica na Esfera dos Livros 783 páginas que estabelecem a primeira grande investigação com fontes primárias e relatos dos que lhe foram muito próximos. O tom da biografia, intitulada apenas 'Sá Carneiro', é o de alguém lá de casa. Que foi procurar as raízes ao tempo dos avós, dos pais e do 'Chico' beato e reservado, até ser  o Francisco, advogado que rouba  a clientela ao pai, e Sá Carneiro, político enganado por Marcelo Caetano ao aderir à Ala Liberal que preconizava alterações à ditadura do Estado Novo. A morte trágica e muito antes do tempo deu-lhe um estatuto de intocável, exemplar para o partido que fundou e irrepetível na política nacional.


Poderia ser um romance se a biografia de Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro não fosse um dos maiores trabalhos de investigação feitos em Portugal nas últimas décadas. Romance porque a vida do fundador do Partido Popular Democrático teria todos os ingredientes para ser uma saga familiar em vários volumes, descritiva de um Portugal ainda monárquico e velho em que os seus antepassados nasceram; de uma república sem rumo em que os avós viveram e de um Estado Novo que os pais testemunharam.
Sá Carneiro entra na biografia à pág. 32, após o autor ter pintado os bastidores até ao parto do bebé que "nasceu, com 4 quilos e meio, à 1h da manhã de 19 de Julho de 1934, num dos quartos do n.º 49 da Rua da Picaria", quarto filho de José Gualberto e Maria Francisca.

A partir daí, Miguel Pinheiro não larga Sá Carneiro, de modo a justificar a escrita do calhamaço que explica, finalmente, quem foi o homem que desceu à terra após a explosão de uma bomba na avioneta em que seguia para o Porto.

Este episódio final, que é definido pelo autor como atentado em vez de acidente, será o momento mais assertivo e opinativo do biógrafo em toda esta investigação. Nos restantes, Miguel Pinheiro comportar-se-á como o observador atento de um percurso formativo, social, religioso e político, que oferece aos leitores toda a intimidade possível de Sá Carneiro.

É sob essa oferta de intimidade que os portugueses podem conhecer pormenores do dia-a-dia - uns divertidos, alguns indiscretos e a maioria factuais - que refazem a sua curta vida. Pode o leitor questionar até que ponto algumas das "indiscrições" pessoais, que existem no livro, sobre alguém que teve sempre forte barreira a impedir a sua revelação, serão exactas?

A resposta é fácil de encontrar nas páginas finais do volume, em que, logo na 617, se imprime uma longa lista de nomes de pessoas que aceitaram dar depoimentos para a elaboração da biografia. Para além de se poder corroborar a influência ou não do testemunho na fixação do texto, observa-se que muitas das fontes que depuseram o fizeram pela primeira vez.

Para o autor, a explicação desta abertura foi o tempo que passou: "Tive a sorte de encontrar pessoas que acharam que, ao fim de 30 anos, era altura de falar abertamente sobre Sá Carneiro." O inesperado é que tenha convencido os familiares mais directos que, diz, "têm sido de uma discrição absoluta nas últimas décadas". Entre eles estão a mulher, Isabel; a irmã, Ana Maria; os filhos José, Teresa e Pedro; e os sobrinhos Maria, Margarida, Miguel e Ricardo.

Mas o facto de terem aceitado falar com o investigador não quer dizer que este não os tenha testado. É por isso que afirma: "Pedi que me contassem alguns episódios mais que uma vez, chegando a deixar passar meses entre as diferentes conversas, para evitar uma mera repetição mecânica".

Das várias facetas que Miguel Pinheiro revela, ou fixa em definitivo porque suportado em factos, sobre Sá Carneiro podem destacar-se algumas. A religiosidade: "Ia à missa diariamente, acompanhava os irmãos numa oração à 'Teresinha, que estava no céu', e preparava o espírito com afinco." Os prazeres: "Adorava cinema - policiais e filmes de guerra. Delirava com a música de Ray Conniff, de Rosemary Clooney, dos Blue Diamonds e dos Platters. Sabia divertir-se - mas não em excesso." A nível de comportamento: "Não era propriamente antipático - cumprimentava toda a gente com um sonoro 'viva!', sorria muito e até se mostrava cordial." Como deputado: "Devia estar atento às intervenções do pai no parlamento. Em 1969, quando foi eleito, recuperou várias das suas preocupações." Relação pai-filho: "Havia pelo menos uma grande diferença entre eles: o pai era um defensor da ditadura, e o filho não."

Sobre o modo como viveu, há palavras do próprio Sá Carneiro que dizem tudo: "Sei que o meu destino é morrer cedo e só concebo a vida se for vivida vertiginosamente." Uma biografia a ler.

DN

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